A imaginação de Soprinho

Ainda recordo de alguns de meus primeiros livros didáticos. As capas coloridas que fazíamos questão de encapar com pôster de artistas ou plástico transparente, as páginas alvas, as gravuras atraentes, as letras garrafais e, principalmente, o cheirinho de livro novo que exalava a cada nova página desvelada.

Não me lembro de ter muita dificuldade para começar ler, tal era o prazer de descobrir cada um dos novos signos com que me deparava.

Nessa etapa, as revistas em quadrinhos e os discos de histórias infantis eram presenças constantes em nossa casa; e diariamente eu degustava cada uma das figuras enquadradas, ou acompanhava as estórias que aos poucos iam sendo contadas nos pequenos discos de vinil, até que com o passar do tempo já conseguia fazer também a leitura do texto verbal nos encartes que os acompanhavam.

No entanto, a lembrança mais nítida dessa época me vem à mente quando penso no primeiro livro de literatura que me dediquei a ler.

Era um livro com lindos desenhos de fadas, e quase cem páginas cheias de milhares de letras, que para mim apenas começavam a mostrar seus significados.

O título do livro era Soprinho, e a história era sobre o vento e sua relação amorosa com as fadas; uma leitura apaixonante.

Pus-me a rememorar para inferir sobre a importância do hábito da leitura; algo que para mim não foi imposto por meus pais e professores, mas adquirido pelo prazer e pela percepção de que a leitura dos signos me levaria a me aprofundar em um mundo que, embora presente, até então se fazia invisível.

Não que eu já tivesse maturidade para entender a importância e a necessidade da leitura naquela fase da vida, mas o prazer de cada novo roteiro que surgia ou até a releitura dessas mesmas histórias instigava em mim a vontade de adentrar essa nova linguagem, que transformava sapos em príncipes e bonecos de madeira em gente, pela simples magia da leitura das palavras e do auxílio luxuoso do pensamento; algo que não acontecia no mundo real.

O hábito da leitura, portanto, para mim, sempre esteve ligado ao prazer que ela me proporciona; levando-se em conta que quanto mais se aprende a ler, mas se desenvolvem as relações com as mensagens que o texto trás; assim, aos poucos vamos percebendo as referências, a intertextualidade, o significado de novas palavras, técnicas de escrita, e principalmente como foi no meu caso, o imenso prazer que a leitura nos dá ao nos transportar para lugares que nunca iremos de fato visitar, como o fundo do mar, a lua e marte, ou até mesmo o céu.

Ainda leio muito, embora encontre muita dificuldade para realizar essas leituras prazerosas que me fizeram tão bem.

Mantenho uma imensa coleção de revistas em quadrinhos – que visito quando o tempo permite – e, embora nem sempre o faça, posso comprar quase todos os livros que me interesso por ler; dessa forma, tento preservar o prazer que descobri com a leitura.

No entanto, meus dias são bastante ocupados e costumo ler o que se faz necessário para o desenvolvimento de meus trabalhos e disciplinas do curso de teatro; assim, quase não sobra tempo para a livre escolha de livros e materiais que realmente me dariam prazer; não que leitura didática não seja prazerosa, afinal, a história do mundo quando bem produzida nos leva a uma viagem inimaginável com o desenrolar de sua linha do tempo.

Quanto a Soprinho, o livro, eu nunca mais o encontrei. Procurei na internet, fiz diversas pesquisas, mas nada achei.

Eu posso ter feito uma péssima busca e ele pode estar em meio aos bilhões de bits nem sempre interessantes que povoam a rede de computadores, mas pode ser que ele nem mesmo tenha sido digitalizado.

Talvez seja uma estória para ser lida nas páginas físicas de um livro surrado e depois contada para os amigos; nunca lida na tela de um tablet ou notebook. Pode, também, ele ter caído no esquecimento e dessa forma não vai mesmo nunca estar na internet.

E existe ainda a sutil possibilidade de que o livro sequer tenha sido escrito e, quem sabe, seja apenas uma fantasia em uma mente fértil, que ainda, se compraz em usar aquilo que melhor desenvolveu em seu contato com o mundo da leitura: a imaginação.


Autor: Cláudio Duarte


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